quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Escritores na Cozinha com... Sónia Cravo

Galo assado no forno

Ingredientes:

  • Galo caseiro
  • Batatas pequenas
  • Azeite
  • Salsa
  • Folhas de louro – 2
  • Dentes de alho – 4
  • Cebola grande – 1
  • Pimento – 1
  • Cerveja pequena – 1


Preparação: 
Colocar o galo na assadeira, cortado em pedaços de tamanho médio, e temperar com sal, azeite, louro, alho, cebola, salsa, um pimento e cerveja. Deixar a marinar para o dia seguinte. Antes de levar ao forno, acrescentar as batatas e tapar a assadeira com papel de alumínio. Ao fim de 2 horas, retirar a prata e deixar alourar durante cerca de 20 minutos. Vai à mesa aos domingos, sempre na companhia de um bom vinho. 



As coisas são há um ror de tempo, perfeitas e imperfeitas, boas e más, são antes e depois, presentes futuros há um ror de tempo. Eu sou o presente que existe em mim, por detrás dos outros, da chuva fria e da chuva quente, da macieira, do silêncio, das leis, das coisas que são vida e que são mortas, da pontinha de beleza do céu que há em mim, das pedras, dos engates, dos amores inteiros, dos sonhos, da boca à espera de pão, da louça lavada e da louça por lavar. Sou lá fora e sou aqui, por detrás da porta fechada com três voltas de chave. E depois penso, mas não como pensava antes, já não há fel nem
vinagre nestes pensamentos, apenas essa consciência louca de que o tempo das interrogações é um tempo sem candura. Aqui, paredes meias com vizinhos, impõem-se-me a noite, mas tudo guincha, guincha e dissolve-se. Eu fecho as pálpebras. Abre-te, Sésamo! É mais um pouco daquilo que chega para de assombro despertar. Agora a minha cabeça fica maior e, nesses instantes, odeio o mundo todo, menos os meus. Mas se me vem à memória uma criança mal alimentada, choro. E volto a odiar o mundo todo, menos os meus e aquela criança. E se penso na vizinha doente, curvada nas escadas, o olhar trágico do marido, a dor deles vem deitar-se ao meu lado, e volto a odiar o mundo todo, menos os meus, a criança, a minha vizinha e o marido da minha vizinha. E é então que a minha cabeça volta a ficar pequena, como se todas as questões do mundo fossem uma espécie de penitência absurda que não me deixa ser para além deste pardieiro. Às vezes, é certo, vem à tona um tempo plano, líquido como a alma que não se vê, e aí sou capaz de me achar longe do mundo. E aí, à falta do mundo, escrevo. Escrevo por tudo isto e por outras razões que não consigo explicar, neste pequeno canto da cozinha onde encaixei uma mesa. A janela sempre fechada.

Sónia Cravo

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